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Tem gente que acha que arte é um app, diz Waltercio Caldas – 15/05/2026 – Ilustrada

by redacao
maio 26, 2026
in Últimas Notícias
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Tem gente que acha que arte é um app, diz Waltercio Caldas – 15/05/2026 – Ilustrada
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“É no quase que a arte acontece”, diz Waltercio Caldas enquanto guia a reportagem pela extensa mostra individual que inaugura na Casa Roberto Marinho nesta quinta (15).

A máxima certamente se aplica à produção do artista, figura central para o pensamento escultórico contemporâneo e um dos nomes mais estabelecidos do cenário artístico nacional. Seus trabalhos costumam desafiar expectativas relacionadas aos suportes em que se apresentam, usando espelhos, linhas de costura e, não raro, o próprio vazio para instigar os visitantes a se interrogarem sobre o que exatamente está diante deles.


“No meu trabalho, a escultura não é escultura, o desenho não é desenho”, resume Caldas. “A gente tem que encurralar a arte”, acrescenta, fazendo jus à sua reputação de frasista.

Mais de uma centena dessas obras inclassificáveis compõem a revisão panorâmica que ele inaugura agora, intitulada “O (Tempo)”. Ela inicia as celebrações pelo seu aniversário de 80 anos, a serem completados em novembro —o artista conta que uma outra exposição, esta sobre a relação dele com a linguagem, está prevista para o ano que vem no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM-SP.

Caldas selecionou e ordenou pessoalmente os itens que exibe na Casa Roberto Marinho agora, uma prática habitual em sua trajetória. Ele considera a montagem de exposições uma continuidade do seu processo artístico, “igual a trabalhar o próprio objeto”.

“Acho que é uma prerrogativa do artista entender a forma como se relacionar com o espaço. É um momento em que a poética se apresenta muito fortemente.”

Um dos fatores que mais o influenciou nessa organização foi a ideia de que as obras ocupariam não espaços neutros, mas cômodos de uma antiga casa —pertencente, no caso, ao jornalista e empresário Roberto Marinho (1904-2003). “Não se briga com a arquitetura, conversa-se com ela. Se você brigar, você perde.”

Outra de suas principais intenções com o arranjo dos trabalhos era instaurar um ritmo à visitação, algo que se traduz principalmente na opção por exibir mais ou menos obras em cada um dos ambientes. Há, assim, momentos de maior respiro —caso do início da mostra, em que os frequentadores atravessam uma instalação de um cômodo inteiro, “Quarto Azul”— e outros mais densos, como a sequência de trabalhos com referências à história da arte do primeiro andar.

Essa cadência quase musical também se faz presente nas transições entre os espaços. O padrão gráfico formado pelas embalagens de chiclete vazias que compõem a instalação “A Velocidade” parece querer impulsionar o frequentador escada acima, por exemplo —Caldas conta que, quando a obra fez sua estreia, na Bienal de São Paulo de 1983, ele mandou pendurar um cartaz que aconselhava os visitantes a passar “o mais rápido possível” pelo trabalho.

“A Velocidade” é uma de muitas obras históricas exibidas na individual, parte de uma carreira que teve início mais de meio século atrás. Caldas recusa, no entanto, a caracterização da mostra como uma retrospectiva. “Não queria fazer uma exposição cronológica. As obras falam sobre o tempo, mas não estão submetidas ao tempo. Tudo é irremediavelmente presente”, diz.

“É um trabalho que não se alcança pela representação. A escala não está disfarçada, os materiais estão identificados”, prossegue. “Meu trabalho é uma crítica ao conceitual, é baseado principalmente em objetos. Não sou de intenções.”


A declaração parece remeter à contaminação do real pelo virtual, um fenômeno que só se fortaleceu desde a pandemia. Questionado sobre a sua visão sobre o digital, Caldas afirma se incomodar principalmente com a falta de reflexividade com que, a seu ver, a sociedade se relaciona com os tantos simulacros ao seu redor. “Às vezes penso que algumas pessoas acham que a arte é uma espécie de aplicativo, uma coisa que você aplica sobre a realidade.”

Ele também critica uma certa lógica de consumo que se estabeleceu em torno da arte, de “escândalos midiáticos e superficialidades arrogantes”, nas palavras dele. Na arte, em si, porém, sua fé segue inabalável. “A arte não joga o jogo da atualidade. Ela se dá apesar disso.”



Fonte:

redacao

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