Era um Brasil que procurava se afirmar, aquele de cem anos atrás, poucas décadas de República e ainda na esteira das comemorações dos cem anos da independência de Portugal.
Naquele contexto, o Rio de Janeiro, então capital federal, vivia um momento de intensa transformação urbana —era a cidade sendo reerguida, a cidade se apresentando como um símbolo moderno e coerente com os tempos de urbanização crescente.
Não é à toa, portanto, que quatro dos mais emblemáticos edifícios do centro do Rio celebrem seu primeiro centenário mais ou menos ao mesmo tempo —eles foram concluídos em 1926 e hoje não só integram a paisagem carioca como são marcas importantes da história do século 20.
São eles o Palácio Tiradentes, o Palácio da Democracia, o Museu da Justiça e o Edifício Touring.
Batizada de Circuito Centenário, a programação comemorativa começou em maio, com palestra do historiador André Leonardo Chevitarese, professor do Instituto Histórico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tour guiado pelas ruas do centro. E prossegue com atividades mensais até o segundo semestre.
“Na década de 1920, a cidade do Rio de Janeiro, então distrito federal, fervilhava cultura. E experiências arquitetônicas”, comenta o historiador Chevitarese.
Os prédios históricos dessa época bebem num contexto da Belle Époque importada da França na virada do século e, ecléticos, funcionavam como marcas de uma cidade que deveria se apresentar como modelo do Brasil republicano.
O Palácio Tiradentes, por exemplo, foi erguido para abrigar o então Congresso Nacional —hoje sedia a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. “Foi erguido com dinheiro vindo de todos os estados do Brasil, como um presente em celebração aos cem anos da Independência”, conta Chevitarese.
O historiador destaca que aquela arquitetura expressa um “projeto de nação” plenamente arraigado ao passado europeu. “O prédio não reverencia as populações indígenas e negras, demonstrando um projeto muito contraditório que exclui”, nota o professor.
O atual endereço do Museu da Justiça abrigava o antigo Tribunal do Júri. “A Justiça do Distrito Federal”, define o historiador.
Já o hoje chamado de Palácio da Democracia, que abriga a sede do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, tem uma história um tanto peculiar. Ali era a sede do Banco Alemão Transatlântico, antiga subsidiária do Deutsche Bank, que funcionava como ponte de investimentos europeus na América Latina. “O prédio, de concreto armado, é espetacular”, destacada Chevitarese.
Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, em 1942, o imóvel fez parte das propriedades de nações adversárias confiscadas pelo governo. “Recentemente, o TRE tomou para si o prédio e restaurou-o na sua quase integralidade”, afirma Chevitarese.
Completa o conjunto o Edifício Touring —o Terminal Marítimo de Passageiros do Touring Club do Brasil— prédio em estilo art déco, obra do arquiteto francês Joseph Gire (1872-1933) que durante décadas foi o endereço da agremiação no Rio, daí a alcunha que pegou.
“A ideia principal do circuito é analisar o que mudou e o que ficou na paisagem do Rio nos últimos cem anos, desta paisagem que colocava o Rio de Janeiro como o centro urbano, cultural e político do país”, comenta a historiadora Tayná Louise de Maria, organizadora da programação, assessora técnica do Museu da Justiça e pesquisadora doutoranda na UFRJ.
Para a historiadora, o que estava em jogo há cem anos —e ficou materializado na arquitetura e no urbanismo— eram “as visões” de como o Brasil “deveria se comportar”, como jovem República buscando espaço e identidade.
Para o arquiteto e urbanista Valter Caldana, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, esses quatro edifícios centenários “têm grande importância individual, material e imaterial, por seus estilos arquitetônicos importados e aplicados aos trópicos, seus materiais, suas técnicas construtivas e sua estrutura estética como um todo”.
“Cada um dos edifícios traz particularidades de enorme importância, com destaque para os materiais importados como mármores e granitos, serralherias e sistemas de iluminação, que hoje poderiam ser entendidos como sistemas tecnológicos avançados, o trabalho em marcenaria e vidro, com destaque para os vitrais”, explica o especialista.
O art déco, nessas construções, destaca-se em um “indisfarçável ecletismo”, pontua Caldana. Como explica o arquiteto, se trata de um veio estético e formal que “faz a ligação dos elementos materiais com a sua importância imaterial e simbólica no universo carioca, fluminense e brasileiro”.
“Trata-se, como toda opção estética, de uma opção simultaneamente política”, analisa ele. Não por acaso, por meio dessas edificações tanto o poder republicano quanto a força econômica das classes dominantes se impunham. São prédios que demonstravam identidade e poder.
Para Caldana, portanto, é o conjunto das edificações que guarda a importância histórica —nesse sentido, é interessante que a celebração não seja mesmo individual.
A construção desses edifícios nos anos 1920 consolidaram um movimento iniciado no Rio no comecinho do século 20, com as reformas urbanas empreendidas na gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913), engenheiro que foi prefeito da então capital brasileira de 1902 a 1906.
“O processo de consolidação urbana do Rio de Janeiro republicano e capital federal se deu de modo lento aos olhos atuais, porém consistentes, profundos e radicais”, contextualiza Caldana.
“Morros inteiros desmontados, largas avenidas como a avenida Central, hoje Rio Branco, abertas sobre um tecido urbano muito pobre, encortiçado, insalubre e de alta densidade com a implantação de sistemas de saneamento, ampliação de áreas a serem construídas pela economia formal e a abertura de novas perspectivas urbanas”, enumera o arquiteto e urbanista.
Tais transformações se tornaram marco histórico-urbanístico.
PROGRAMAÇÃO
18 de junho: Palestra — O Antigo Palácio da Justiça
Local: Museu da Justiça, Rua Dom Manuel, 29
Horário: 15h
23 de julho: Palestra — O Antigo Banco Alemão Transatlântico, hoje Palácio da Democracia
Local: Rua da Alfândega, 42
Horário: 11h
20 de agosto: Palestra — Palácio Tiradentes
Local: Rua Primeiro de março, s/n
Horário: 11h
Setembro: Palestra sobre o Antigo Terminal Marítimo – Touring Club
Programação completa e mais detalhes:
www.tjrj.jus.br/web/museu/circuitocentenario

