O IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil) e a Prefeitura de São Paulo divulgaram nesta segunda-feira (4) o projeto do futuro Parque Municipal do Bixiga — que será implantado após cerca de 45 anos de mobilização do bairro, especialmente do Teatro Oficina, vizinho ao terreno. A proposta escolhida irá desenterrar e renaturalizar uma parte do córrego homônimo, cujo curso será acompanhado por uma passarela-deque.
O concurso foi vencido pelo coletivo paulistano Democratic Architects, que terá cerca de dez meses para desenvolver o projeto final. A proposta traz o conceito de “cidade-esponja”, do arquiteto chinês Kongjian Yu (1963-2025), com parte dos espaços alagáveis nos períodos de chuva.
Havia a previsão de início da obra no segundo semestre de 2027, mas a gestão Ricardo Nunes (MDB) não confirmou o cronograma à reportagem. A entrega será em duas fases, pois um trecho próximo à rua Santo Amaro será primeiramente utilizado como canteiro de obras da linha 19-celeste do Metrô.
A compra do terreno foi viabilizada em 2024, após um acordo histórico com o Grupo Silvio Santos, dono da área, por R$ 64 milhões. Os recursos vieram majoritariamente de outro acordo, relativo à chamada “máfia dos fiscais”, com a Uninove (Universidade Nove de Julho). O custo de implantação será definido após a versão final do projeto.
O parque deve ter 90,4% de seus 11.067 m² de áreas permeáveis. O concreto e calçamentos pré-existentes serão removidos do local, onde funcionou um estacionamento durante anos em meio a tentativas fracassadas de implantação de torres e até mesmo de um shopping.
‘Terá uma identidade ligeiramente distinta’, diz coautor
A proposta selecionada organiza o terreno em duas áreas: uma delas com quadra, praça para performances, gramado esportivo, arquibancada e mais espaços de uso comum; outra contempla bosque com 180 árvores nativas, passarela sobre córrego renaturalizado e jardins alagáveis.
O projeto é assinado pelos arquitetos e urbanistas Antonio Roberto Zanolla, Andre Zanolla e Bianca de Lira Silva. O prêmio do concurso é de R$ 130 mil. Entre os trabalhos mais recentes do coletivo, está o do novo mercado municipal do bairro Prati, que está em obras em Roma, uma parceria com o escritório italiano Adat Studio.
O parque do Bixiga será um “parque-esponja”, de modo que terá momentos em que as clareiras e outros espaços estarão acessíveis ao público, enquanto, em outros, ficarão tomados pela água. “Com a chuva, terá uma cara. Na estiagem, será diferente. Cada vez, o parque terá uma identidade ligeiramente distinta”, explicou Andre Zanolla à Folha.
Para ele, o parque será único, não apenas pela proposta, mas pelo histórico de mobilização. “É um cruzamento de caminhos entre política, história e cultura, todas as questões de São Paulo”, descreveu o coautor, cuja avó (mãe de Antônio, do mesmo coletivo) nasceu no Bixiga.
O movimento pela criação do parque começou nos anos 1980, liderado por Zé Celso Martinez Corrêa, maior nome da história do Oficina, morto em 2023. O tombamento da sede do grupo ainda naquela década também decorre da mobilização.
O projeto da companhia já trazia uma praça pública vizinha, de autoria de Lina Bo Bardi (mesma arquiteta do Masp e do Sesc Pompeia) e Edson Elito.
Segundo Andre, o projeto buscou valorizar a presença do teatro no local. Desse modo, uma praça de performances e uma arquibancada estarão junto à sede da companhia, mas não necessariamente serão utilizadas apenas pelo Oficina.
Além disso, a proposta mantém a árvore plantada por Lina ao lado do teatro. Caída após uma tempestade, mas ainda viva e cultuada pelos artistas do Oficina, o espécime seguirá na horizontal, rodeado por uma pracinha.
Presidente do IAB-SP, Danielle Santana destaca que esse será o primeiro parque paulistano feito com a premissa de renaturalização. Isto é, de desenterrar um córrego hoje escondido, invisibilizado. “Por si só, isso já é uma inovação”, declarou à reportagem.
O Parque do Bixiga terá, ainda, cinco “bolsões de liberdade”. Esses locais serão praças abertas até mesmo fora do horário de funcionamento do parque, que será cercado.
O anúncio do resultado do concurso ocorreu no próprio terreno do Bixiga, com celebração de artistas e lideranças locais, especialmente do Oficina. Um grande retrato de Zé Celso foi carregado pelos presentes.
“É uma revolução ecológica, como dizia Zé Celso”, descreveu a vice-presidente da companhia, Marília Piraju, no evento. Ela destacou a mobilização pela criação: “Nunca esperamos a resolução: fomos ao encontro dela”.
O prefeito não esteve no evento. Em nota, a prefeitura atribuiu a ausência à “incompatibilidade de agenda”.




