Rosa Artigas tinha gosto por trabalhos manuais. Passava horas no ateliê montado no antigo quarto de um dos filhos, um refúgio voltado às suas “loucuras” com cerâmica, tecelagem, papel-machê, encadernação e outras atividades artesanais.
Era também afeita à costura. Não só a de almofadas, roupas e toalhas de mesa, mas costurava a história, ao unir aquilo que testemunhou no ambiente doméstico e o que garimpou em arquivos ao longo de décadas.
Rosa foi guardiã e difusora da memória da própria família. E, ao fazê-lo, preservou as ideias e a trajetória da Escola Paulista — vertente da arquitetura moderna reconhecida pela preocupação social e valorização do concreto, cuja maior liderança foi o seu pai, Vilanova Artigas.
Historiadora, Rosa se mobilizou para guardar o acervo deixado após a morte do pai, um dos maiores nomes da arquitetura brasileira, em 1985. Esteve à frente da criação da Fundação Vilanova Artigas, com o apoio de amigos e da mãe, a artista Virgínia Camargo Artigas, cujo legado também resgatou.
O acervo reunido em parte por Rosa foi posteriormente doado à FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), da Universidade de São Paulo, gesto celebrado no meio. O prédio da instituição é um dos principais projetos do arquiteto, assim como o estádio do Morumbi e o edifício Louveira, entre outros.
Familiares a descrevem como uma pessoa curiosa, falante, que não parava quieta e que adorava contar histórias. Era caseira, mas gostava de encontrar amigos em restaurantes e cafés, assistir a concertos na Sala São Paulo e andar pelo centro paulistano, que “conhecia como a palma da mão”.
Nascida em 24 de dezembro, brincava que “não tinha concorrência com Jesus”. Fazia questão de não ser prejudicada pela data, contudo, e exigia ganhar presente tanto de Natal quanto de aniversário. “Amava profundamente a vida”, resumiu a família à Folha.
Rosa manteve essa dedicação até perto dos últimos meses de vida. Quando adoeceu, em janeiro, estava voltada especialmente a desenvolver exposição sobre a mãe, a escrever a biografia do pai e a organizar coletânea de textos do arquiteto para publicação na Europa.
Em paralelo, foi uma das fundadoras da Escola da Cidade, criada a partir de 1996 para a formação de arquitetos e urbanistas e inspirada nas ideias de Artigas. Também lecionou na Universidade Braz Cubas e trabalhou em equipamentos de cultura estaduais e municipais por décadas, especialmente nas oficinas culturais Amácio Mazzaropi, Oswald de Andrade e Mário de Andrade.
Entre outros feitos, foi cocuradora da 7ª Mostra de Arquitetura da Bienal de Veneza de 2000, recebeu o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) em 2016, pelos trabalhos em celebração ao centenário do pai, e, em 2025, tornou-se professora emérita da Escola da Cidade.
Nessa missão, ela também registrou a trajetória de outros grandes arquitetos, como Paulo Mendes da Rocha e João Walter Toscano. Os trabalhos estão em livros, exposições e outros meios de difusão.
Historiadora, pesquisadora, professora, produtora cultural e curadora, Rosa Artigas morreu aos 75 anos em 6 de julho. Deixou os filhos, Marco e Laura, e o companheiro de vida, Reginaldo, seu marido por quase 50 anos.
Em nota, a FAU-USP apontou que Rosa transformou sua herança em exposições, aulas, palestras, cursos, oficinas, debates e livros. A Escola da Cidade descreveu a historiadora como intelectual comprometida, com “compreensão rara e profundamente lúcida da responsabilidade social e histórica”.

