Nenhuma conversa era trivial para Julio Katinsky. Ler, pesquisar e estudar eram seus grandes prazeres, uma diversão tão clara que chegava a rir ao compartilhar um novo conhecimento adquirido.
Katinsky foi um dos mais longevos docentes da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), onde lecionou por mais de 60 anos e foi diretor. Quando recebeu o título de professor emérito em 2025, estava cercado de alunos e admiradores de diferentes gerações.
Nos escritos e nas palavras, trazia contexto, referências, complexidade e ideias por vezes fora do óbvio. Era muito inteligente, articulado e atualizado, assim como irônico, provocador e um professor que não subestimava os mais jovens, independentemente da pergunta que ouvia.
Katinsky também teve uma carreira prolífica por sete décadas, aproximando teoria e prática. Participou de projetos de arquitetura, restauro e design, como na concepção do Teatro Municipal de Santos e na restauração da Faculdade de Medicina da USP.
Trabalhou com grandes nomes, como Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, João Vilanova Artigas, Jorge Zalszupin e Ruy Ohtake.
O pesquisador passou a se identificar como designer somente depois dos 90 anos, contudo, mesmo com peças criadas desde os anos 1960. O entendimento veio apenas com exposição de parte de seus móveis e desenhos industriais em 2022, como a mesa de centro Andorinha, a poltrona Katinsky e a banqueta Katinsky.
A curadoria do evento foi de Ethel Leon, “discípula” que visitava o professor todo mês, sempre com uma guloseima em mãos, por conhecer o gosto dele por doces e bacalhau. “Saía de lá com uma aula”, conta ela. “Vinha com naturalidade, uma memória impressionante e uma atualização também.”
Com uma produção acadêmica variada, Katinsky despontou com estudos sobre a formação da arquitetura brasileira. Em sua tese, de 1973, descreveu como as “casas bandeiristas” do período colonial (como a da avenida Brigadeiro Faria Lima) eram resultado da junção das formas de morar de portugueses e indígenas.
O arquiteto nasceu em Salto, no interior de São Paulo, filho de professora brasileira de português e engenheiro húngaro. Na capital paulista, viveu por mais de 50 anos na casa que projetou para si e a família em Perdizes, na zona oeste.
Professor, pesquisador, arquiteto, urbanista e designer, Julio Roberto Katinsky morreu aos 94 anos em 10 de junho. Ele deixou a filha Ana Beatriz, a Bia. A causa da morte não foi divulgada.
Em nota, a FAU-USP descreveu o arquiteto como alguém cuja trajetória se entrelaça com a da instituição, com ensinamentos que “marcaram gerações e permanecem vivos em todos”. O CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) o chamou de “um dos nomes mais relevantes da arquitetura brasileira nas áreas do ensino, da pesquisa, do design e da prática profissional”.

