Um atalho para conhecer um pouco da arquiteta e urbanista Helene Afanasieff é visitar o perfil que manteve no Facebook. A rede social foi diário e repositório de reflexões por anos, com dicas de filmes e livros, desenhos autorais de aves e plantas, críticas políticas e histórias de família.
“Já que não dá para fazer planos, nem de curto, óbvio, nem de médio e nem de longo prazo –já que a idade é um fator significativo para os planos… resolvi desejar coisas”, compartilhou em abril de 2020, durante a pandemia. Na postagem, escreveu sobre comprar um tamanco de madeira e ter casa na praia. “Sonhar e desejar faz parte da nossa consciência saudável (não sei se Freud aprovaria)”, dizia.
Também estão ali pensamentos sobre São Paulo, cidade cujas ruas ela percorreu quase diariamente por anos —especialmente do apartamento, em Higienópolis, ao escritório no edifício do IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil) na Vila Buarque, região central.
Muitos amigos e admiradores falam dessas caminhadas junto do marido, o renomado arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha, que morreu há cinco anos.
Por cerca de 50 anos, os dois formaram um dos mais ilustres casais de São Paulo. Ela teve uma trajetória múltipla: cofundadora da Escola da Cidade, editora de livros, servidora pública com atuação pela habitação social e designer de joias; ele, autor de obra mundialmente reconhecida e premiada.
A arquiteta nasceu na Alemanha, de família russa ortodoxa. Embora tenha passado também pelos Estados Unidos, era São Paulo que ela chamava de “minha cidade”, onde chegou menina, em 1949, junto dos irmãos, de uma avó e dos pais.
Helene se formou na USP (Universidade de São Paulo) em 1967. Trabalhou voltada à moradia popular no governo do estado e na prefeitura, incluindo 15 anos na CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), onde foi superintendente.
Em paralelo, lecionou e foi diretora da Escola da Cidade, referência na formação de arquitetos e urbanistas há 24 anos. “Todo o trabalho foi inventado por nós”, contou à Folha, em 2000, sobre o início da instituição, que posteriormente lhe concederia o título de professora emérita.
Pedro Mendes da Rocha descreveu a madrasta à reportagem como gentil e espirituosa, e alguém que tratava crianças como pessoas crescidas, não como bobocas. “De uma simplicidade no trato com todos”, completou.
Helene Afanasieff morreu aos 82 anos em 24 de maio, de causa não divulgada pela família. Deixou a filha Nadezhda (a Naná, batizada em homenagem a avó russa) e outros tantos entes queridos.
A Escola da Cidade descreveu a antiga professora como “presença fundamental na arquitetura paulista” e alguém que marcou gerações, “permanecendo viva na memória e na história da nossa instituição”.
Por sua vez, o IAB-SP lembrou do trabalho de Helene na habitação social, da presença na cena cultural e arquitetônica e da sensibilidade das joias que ela confeccionava. “Deixa uma marca de generosidade intelectual e criatividade que atravessou campos e gerou afetos duradouros.”

